Vaza "preocupação" dentro do Planalto com as eleições de 2026

Caio Tomahawk

 

Uma avaliação interna que circula nos corredores do Palácio do Planalto revela um cenário de apreensão crescente no governo Lula em relação às eleições de 2026. Auxiliares próximos ao presidente reconhecem, em caráter reservado, que a disputa promete ser uma das mais difíceis enfrentadas pelo petista desde seu retorno ao poder. A leitura predominante é que o pleito repetirá — ou até aprofundará — o clima de forte polarização que passou a marcar a política brasileira nos últimos anos, com pouco espaço para candidaturas fora dos polos já consolidados.

Os brasileiros irão às urnas no dia 4 de outubro de 2026 para escolher presidente da República, governadores, senadores, deputados federais e estaduais. Caso seja necessário, o segundo turno ocorrerá em 25 de outubro. Dentro do governo, há consenso de que a eleição presidencial será novamente marcada pelo confronto direto entre projetos opostos de país, tendo como eixo central a comparação constante entre Lula e o bolsonarismo, personificado, direta ou indiretamente, na figura do ex-presidente Jair Bolsonaro e de seus aliados.

Segundo fontes do Planalto, a comunicação do governo já admite que o debate eleitoral deverá ser menos pautado por resultados concretos da gestão e mais pela disputa de narrativas, discursos e símbolos. A avaliação interna é que indicadores econômicos ou administrativos positivos, por si só, não serão suficientes para garantir vantagem eleitoral. Por isso, a estratégia passa a ser reforçar bandeiras sociais e ideológicas que dialoguem diretamente com parcelas específicas do eleitorado.

Com esse objetivo, o governo já trabalha com um cronograma político bem definido. A intenção é concentrar, sobretudo no primeiro semestre do ano eleitoral, uma série de ações com forte apelo social, acompanhadas de ampla divulgação institucional. Essas iniciativas servirão tanto para reforçar a imagem do governo quanto para funcionar como alicerce da campanha de Lula, caso ele decida disputar um quarto mandato presidencial.

Entre os principais exemplos citados por integrantes do governo está a exploração política da isenção do Imposto de Renda para trabalhadores que recebem até R$ 5 mil mensais. A medida, aprovada no fim de novembro, foi apresentada pelo Planalto como uma promessa cumprida e entrará em vigor justamente em 2026, coincidindo com o ano eleitoral. A expectativa é usar o tema como vitrine, reforçando o discurso de que o governo estaria “aliviando” a carga tributária sobre os mais pobres.

Paralelamente, o Planalto deve intensificar a retórica da chamada “justiça tributária”, associando a isenção do IR à taxação de 10% sobre pessoas com rendimentos superiores a R$ 600 mil por ano. Para aliados de Lula, essa narrativa ajuda a reforçar o contraste entre ricos e pobres, estratégia que historicamente mobiliza a base eleitoral petista, mas que também encontra forte resistência em setores da classe média e do empresariado.

Outra aposta considerada estratégica é a pauta da tarifa zero no transporte urbano. Lula pretende impulsionar o tema ao longo de 2026, apresentando-o como uma política social capaz de aliviar o custo de vida nas grandes cidades. A proposta, no entanto, enfrenta questionamentos sobre viabilidade financeira e impacto fiscal, pontos que devem ser explorados pela oposição durante a campanha.

O presidente também voltou a defender publicamente mudanças na jornada de trabalho. Em declarações recentes, Lula afirmou que “nenhum direito é tão urgente, hoje, quanto o direito ao tempo”, defendendo o fim da escala 6×1 e a adoção do modelo 5×2. A proposta de emenda constitucional que trata do tema foi aprovada na Comissão de Constituição e Justiça do Senado no dia 10 de dezembro e aguarda votação em plenário. Aliados como Guilherme Boulos afirmam que a prioridade do governo é tentar aprovar a medida ainda no primeiro semestre de 2026, justamente para capitalizar politicamente o tema.

Apesar do esforço, o clima interno é de cautela. Auxiliares admitem que o desgaste do governo, a insatisfação com a economia e a sensação de distanciamento entre discurso e realidade podem pesar contra Lula. Além disso, as primeiras pesquisas que testam o nome de Flávio Bolsonaro no cenário nacional já acenderam um sinal de alerta no Planalto. Segundo relatos, os números indicam um eleitorado revoltado com o governo do PT e disposto a apoiar uma alternativa ligada ao bolsonarismo.

Nos bastidores, a percepção é clara: Lula “vai tentar de tudo” para chegar forte à eleição de 2026. Ainda assim, cresce o entendimento de que o caminho será mais árduo do que o inicialmente imaginado. A disputa promete ser intensa, polarizada e marcada por embates duros, refletindo um país ainda profundamente dividido — e um governo que sabe que não pode errar se quiser sobreviver nas urnas.

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